Tenho dois irmãos: a Ana Carolina, que nasceu em Belo Horizonte em 1989, e o Rafael, que nasceu em 1993 na mesma cidade. Ana sempre foi a mais madura de nós, talvez por ser a primogênita, enquanto Rafael chegou trazendo uma energia diferente para a casa, já em tempos mais tranquilos da família.
A Ana tinha cabelos castanhos lisos, quase sempre presos em trança, olhos escuros que transbordavam calma. Ela era uma mistura de mãe e irmã, sempre pronta para me defender na escola, mas também para puxar minha orelha quando eu aprontava. O Rafael era mais agitado, vivia de bermuda e camiseta, o cabelo loiro bagunçado pelo vento das brincadeiras no quintal. Lembro do cheiro de terra molhada quando jogávamos bola após a chuva. Eu era o irmão do meio, sempre tentando ser ouvido entre a doçura da Ana e a ousadia do Rafael. Nossa relação era intensa: brigávamos por bobagens, mas bastava alguém de fora mexer com um de nós para todos se unirem imediatamente.
Um evento que nunca vou esquecer foi quando Rafael caiu da árvore do quintal e precisou ir para o hospital. Eu senti um frio na barriga tão forte que, até hoje, consigo lembrar o cheiro de álcool e de lençol limpo do pronto-socorro. Ana chorava baixinho, tentando ser forte, e eu me senti pequeno, com medo de perder meu irmão. No final, ficou só o susto e uma cicatriz pequena no queixo do Rafael, que ele exibe até hoje com orgulho, como se fosse um troféu de coragem.
Minha tia Helena foi uma segunda mãe para mim, sempre me recebendo com bolo de fubá fresco e aquele cheiro doce espalhando pela casa. O professor Paulo do primário também marcou minha infância: ele tinha voz grave, mãos grandes e um jeito paciente de explicar matemática. Minha melhor amiga era a Luiza, vizinha da rua de cima, com quem eu dividia confidências sentadas no meio-fio, sentindo o calor do asfalto nos dias de verão.
A tia Helena me ensinou o valor do acolhimento e da generosidade. Suas tardes de conversa e bolo me ajudaram a superar a saudade dos meus pais quando viajavam a trabalho. O professor Paulo despertou minha curiosidade pelo mundo, mostrando que aprender podia ser leve e divertido, com as brincadeiras que ele fazia usando pedrinhas coloridas. Já a Luiza foi minha confidente, a pessoa que ouviu meus primeiros segredos e compartilhou sonhos de criança. Cada um, à sua maneira, me ajudou a ser quem sou hoje, trazendo um pouco de cor, sabor e calor para a minha história.
Meu nome é Lucas Henrique Vieira, mas sempre fui chamado de Luquinha pela família e pelos amigos mais próximos. Nasci em Belo Horizonte, no dia 14 de março de 1987, em uma manhã de céu claro, segundo conta minha mãe.
Minha mãe sempre dizia que cheguei antes do previsto. Ela foi para o hospital no meio da madrugada sentindo contrações, e meu pai, apressado e meio perdido, esqueceu até a bolsa de maternidade em casa. Nasci pouco depois das seis, enquanto a cidade ainda acordava, e lembro dela contar que a primeira coisa que notou foi o som do meu choro ecoando pelo corredor da maternidade. Meu avô, que nunca tinha ido ao hospital, ficou tão emocionado que levou flores para as enfermeiras.
Naquela época, minha família morava em Belo Horizonte mesmo, no bairro Santa Tereza, uma região conhecida pelo clima de vila e pelas festas tradicionais.
Morávamos em uma casa simples, mas cheia de vida. Eram três quartos, uma sala com sofá antigo, cozinha com azulejos azuis e um quintal grande nos fundos, onde meu pai cultivava jabuticabeiras e a mãe estendia roupa nos varais. Lembro do piso frio, do cheiro de café passado de manhã e da varanda onde a gente ficava para ver a chuva cair.
Belo Horizonte tinha ruas largas e arborizadas, com casas baixas e vizinhos conversando nas calçadas. O barulho dos bondes era constante, misturado ao som de crianças brincando de bola nas ruas. O bairro tinha padaria na esquina, mercearia com balcão de madeira e uma pracinha onde aconteciam festas juninas. Aos domingos, meu pai me levava ao Parque Municipal para ver os patos no lago e tomar sorvete de coco. A cidade cheirava a pão quentinho e tinha sempre o céu riscado por andorinhas no fim da tarde.