Nasci no sul-oeste da França, em meio a uma vida simples de fazendas e deslocamentos constantes com meus pais e minhas quatro irmãs. Carrego em meu nome a memória de minhas avós — histórias de amor, dor e força que moldaram o início da minha trajetória.
Não conheci nenhum dos meus bisavós, mas lembro-me bem dos relatos sobre meus avós. Do lado materno, meus avós chamavam-se Marie e Cyprien. Minhas duas irmãs mais velhas, Marcelle e Odette, nasceram na casa deles, “Au Pigeonnier”, em 1928 e 1929. Naquela época, meus pais ainda moravam lá. A história que sempre me contaram é que, certo dia, minha avó Marie saiu para vender ovos na feirinha e desmaiou no caminho. Dias depois, faleceu de um ataque cardíaco — justamente quando minha mãe estava grávida de mim. Foi assim que recebi o nome dela, em sua homenagem.
Depois da morte de Marie, meu avô Cyprien foi morar em Sainte-Anne, na casa da filha Germaine. Nunca fomos muito próximos, ele não vinha nos visitar, e nunca soube ao certo o motivo desse distanciamento.
Nasci em 11 de abril de 1936. Pouco depois, fomos viver com meu avô paterno, Antoine, em Lagraulet Saint Nicolas. Ele tinha uma história difícil: bebia muito e batia em sua esposa, minha avó Louise, que, segundo contam, morreu de tristeza antes de eu nascer. Nunca a conheci, mas também recebi seu nome. Antoine casou-se novamente com outra mulher, também chamada Louise, e, apesar de seu passado, dizem que comigo ele era diferente: tinha muito carinho por mim e queria até que eu ficasse com ele quando nos mudamos para Caubiac. Mas minha mãe não permitiu de jeito nenhum — mesmo enfrentando tantas dificuldades para alimentar as filhas, jamais aceitaria se separar de mim.
Meus pais se chamavam Jean-Marie e Léontine — embora eu só tenha descoberto, mais de 80 anos depois, que o verdadeiro nome de minha mãe era Marie-Jeanne. Ambos nasceram na região de Toulouse: meu pai em 1905 e minha mãe em 1903. Ele era baixinho, calvo desde que me lembro, mas cheio de energia e caráter firme. Ela, morena, pequenina e sempre serena, era doce, meiga e nunca se queixava de nada.
Tiveram cinco filhas e viveram quase sempre trabalhando de roça em roça, mudando conforme a necessidade dos patrões. Meu pai era fiel e protetor. Contam que certa vez, diante de uma patroa que criticava o trabalho de suas filhas, respondeu com firmeza:
— “As minhas filhas valem as suas!”
E saiu, levando toda a família consigo.
Apesar das dificuldades, meus pais se entendiam bem. Minha mãe cozinhava com o que havia disponível na fazenda: legumes, coelhos, frangos. Recordo-me especialmente do prato de batatas com bacalhau, alho, salsa, farinha e leite. E quando não havia peixe, ela fazia apenas as batatas. Até hoje, o cheiro dessa comida me traz de volta a lembrança dela.
Sempre fui mais próxima de minha mãe, enquanto minha irmã Ginette andava sempre ao lado de meu pai.